
Durante uma entrevista concedida a
Globo News o poeta
Ferreira Gullar disse que a maneira de pensar e agir do brasileiro é muito diferente dos nossos vizinhos argentinos.
Ferreira Gullar citou como exemplo disso a diferença entre as ditaduras militares dos dois países. Ele disse que na Argentina a perseguição atroz aos opositores se deu imediatamente após à tomada do poder pelos militares, enquanto no Brasil uma perseguição mais austera teve inicio apenas alguns anos depois do golpe militar.
De fato, a repressão no Brasil foi branda se comparada a violência argentina, e o número de opositores brasileiros vitimados pela perseguição não se compara às dezenas de milhares de argentinos mortos na luta por seus ideais.
Será que o brasileiro é mais passivo do que o argentino? É evidente que sim.
Seja como for, as palavras daquele ex-exilado político me trouxeram à mente um dos mais enigmáticos mistérios da Argentina
: o aparente desaparecimento de sua população afro-descendente.
Não é estranho que a Argentina contemporânea seja considerada um país de não negros, sendo que durante seu período escravocrata a proporção de negros de sua população era a mesma do Brasil escravagista?
Afinal de contas, onde estão os negros da Argentina?
De acordo com o último censo a Argentina é formada por 97% de brancos (descendentes principalmente de espanhóis e italianos) e apenas 3% de outros grupos, principalmente ameríndios, sendo que os descendentes de africanos nem ao menos são computados no censo argentino.
Mas como já foi dito, houve um tempo em que a população negra era expressiva naquele país. Em 1810, os moradores negros representavam cerca de 30% da população de Buenos Aires. Em 1887, entretanto, seu número havia caído para menos de 2%.
O que pode ter contribuído para um decréscimo tão acentuado da população negra?
Historicamente o desaparecimento do negro argentino está vinculado a dois eventos principais ocorridos durante o século 19
: uma epidemia de febre amarela que devastou bairros negros urbanos, e uma brutal guerra com o Paraguai que colocou muitos argentinos negros na linha de frente para morrer. Contudo, esses mitos históricos parecem não explicar a contento a questão do desaparecimento da população Argentina de origem africana. Na verdade, existem evidencias de que o desaparecimento da população negra da Argentina tem haver com uma política de branqueamento da população durante o século 19, que culminou com o genocídio dos ex-escravos.
Porém, ainda que a maioria absoluta dos argentinos se considere brancos acima de qualquer suspeita, na verdade muitos, sem saber, carregam em seus genes a herança de seus antepassados africanos. Estudos recentes sugerem que grande parte da negritude argentina, praticamente desaparecida por causa da miscigenação, ainda sobrevive nos genes de pelo menos 10% dos residentes em Buenos Aires.
Durante a pesquisa que fiz para a elaboração desta postagem, percebi que este assunto não deve ser bem quisto nas rodas de bate-papo entre argentinos.
Numa entrevista concedida ao Observatório Afro-Latino, o escritor argentino Miguel Rosenzvit trata desse tema. Leia mais sobre
A história oculta e esquecida dos negros na Argentina.